sexta-feira, 22 de abril de 2011

Comentários sobre o Artífice – Capitulo 1 – baixa de motivação e ruptura das habilidades

Nos dias 31/03 e 01/04 realizamos um debate sobre o texto referente ao primeiro cápitulo do livro – O artífice – Baixa de Motivação – pág 38-48. Destacamos alguns pontos:

“O mundo moderno tem duas receitas para suscitar o desejo de trabalhar bem e com afinco. Uma é o imperativo moral de trabalhar pelo bem da comunidade. A outra recorre à competição: pressupõe que competir com outros estimula o desejo do bom desempenho, prometendo recompensas individuais no lugar da coesão comunitária. As duas receitas se têm revelado problemáticas. Nenhuma delas — em sua forma nua e crua — serviu às aspirações de qualidade do artífice.

[...]O mundo de seus pais e avós era de certa forma protegido dos rigores da competição. No século XX, os trabalhadores qualificados de classe média encontravam lugar em burocracias relativamente estáveis que conduziam os empregados por uma longa carreira, da juventude à aposentadoria. Os antepassados das pessoas que entrevistamos trabalhavam duro para conseguir o que queriam; sabiam perfeitamente o que lhes aconteceria se não o fizessem.

Não é mais novidade que esse mundo de classe média desmoronou. O sistema corporativo que outrora organizava carreiras tornou-se um labirinto de empregos fragmentados. E m princípio, muitas empresas da nova economia adotam as doutrinas do trabalho em equipe e da cooperação, mas, ao contrário das práticas que vigoram na Nokia e na Motorola, esses princípios frequentemente são uma farsa. Constatamos que as pessoas davam demonstrações de comportamento amistoso e cooperativo sob o olhar controlador dos executores da vontade do patrão, em vez de — como acontece nas boas empresas japonesas — desafiar e contestar os superiores. Verificamos, como já fizeram outros pesquisadores, que elas raramente consideravam como amigos os colegas de trabalho em equipe. Alguns dos entrevistados se sentiam estimulados por essa competição individualizada, mas a maioria ficava deprimida — e por um motivo específico. A estrutura de recompensas não funcionava bem para elas.”

As relações de trabalho são amplamente questionadas no livro e podemos perceber as diferenças entre os trabalhadores na Russia, na Europa e no Japão. Alguns questionamentos nos instiga a avaliar as relações das empresas e o funcionalismo nos dias de hoje.

“Mas a habilidade não basta para protegê-los. No mercado globalizado de hoje, os trabalhadores qualificados de nível médio arriscam-se a perder o emprego para um concorrente da índia ou da China que tem a mesma qualificação mas trabalha por um salário mais baixo; a perda do emprego não é mais um problema exclusivo da classe operária. Mais uma vez, muitas empresas tendem a não fazer investimentos de longo prazo na capacitação de um empregado, preferindo contratar pessoas que já têm as novas qualificações a enveredar pelo processo mais dispendioso de recapacitação[...]. As empresas que não demonstram muita lealdade para com seus empregados suscitam em troca um baixo grau de comprometimento: as companhias que operavam através da Internet e enfrentaram problemas no início da década de 2000 aprenderam uma dura lição, vendo seus empregados saltarem do barco que afundava em vez de se esforçarem para ajudar na sobrevivência. Descrentes das instituições, os trabalhadores da nova economia apresentam índices mais baixos de comparecimento eleitoral e participação política que os trabalhadores de nível técnico de duas gerações atrás; embora muitos deles se filiem a organizações de voluntariado, são poucos os que participam ativamente. E m seu festejado livro Bowling alone [Jogando boliche sozinho], o cientista político Robert Putnam apontou nesse "capital social" reduzido um resultado da cultura televisiva e da ética consumista; em nosso estudo, constatamos que o distanciamento em relação às instituições estava mais diretamente relacionado às experiências no trabalho.

[...]Do ponto de vista social, em suma, a desmoralização tem muitos lados. Pode ocorrer quando uma meta coletiva de bom trabalho perde o sentido e se torna vazia; da mesma forma, a pura e simples competição pode neutralizar um bom trabalho e deprimir os trabalhadores. Nem o corporativismo nem o capitalismo, como simples etiquetas, atacam a questão institucional. As formas de comunicação coletiva nas fábricas japonesas de automóveis e as práticas de cooperação em empresas como a Nokia e a Motorola levaram à lucratividade. Em outros terrenos da nova economia, contudo, a competição incapacitou e desalentou os trabalhadores, permanecendo

sem recompensa ou invisível o ethos do bom trabalho pelo bom trabalho que orienta o artífice.”

Na reunião do dia 15 de abril discutimos sobre o item “a ruptura das habilidades” pág. 48-57 que fala sobre o que vivemos na era moderna comparando a economia de capacitação com uma prática de “treinamento” o que constrasta com a inspiração. “O atrativo de inspiração está em parte na convicção de que o talento bruto pode substituir o treinamento.”


“Devemos encarar com desconfiança os supostos talentos inatos e sem treinamento. Comentários do tipo "se tivesse tempo, eu escreveria um grande romance" ou "se pelo menos conseguisse me recompor" costumam ser fantasia narcisista. Revisar repetidas vezes uma ação, em contrapartida, permite a autocrítica. A educação moderna evita o aprendizado repetitivo, considerando que pode ser embotador. Temeroso de entediar as crianças, ávido por apresentar estímulos sempre diferentes, o professor esclarecido pode evitar a rotina, mas desse modo impede que as crianças tenham a experiência de estudar a própria prática e modulá-la de dentro para fora.

O desenvolvimento das capacitações depende da maneira como é organizada a repetição. Por isso é que, na música como no esporte, a duração de uma sessão de prática deve ser cuidadosamente pesada: o número de vezes a repetir uma peça não pode ultrapassar o alcance da atenção do indivíduo em determinada etapa. À medida que se expande a capacitação, a capacidade de sustentar a repetição aumenta. Na música, é a chamada regra Isaac Stern, tendo declarado o grande violinista que, quanto melhor a técnica, por mais tempo o músico é capaz de ensaiar sem se entediar. Existem momentos "Eureca!" que soltam as amarras de uma prática que emperrou, mas eles estão incorporados à rotina.”

Em determinado trecho associei ao processo de ensinar em sala de aula o que o autor diz sobre a capacitação: “À medida que uma pessoa desenvolve sua capacitação, muda o conteúdo daquilo que ela repete.”










Perspectiva de Interior feita a mão e colorida no Corel Draw

O autor cita uma comparação feita em relação à desenhos feitos pelo CAD (computer-assisted design: desenho com a ajuda do computador) por uma arquiteta:


"quando projetamos um espaço, desenhando linhas e árvores, ele fica impregnado em nossa mente. Passamos a conhecê-lo de uma maneira que não é possível com o computador. (...) Ficamos conhecendo um terreno traçando-o e voltando a traçá-lo várias vezes, e não deixando que o computador o 'corrija' para nós".[1]

Em relação ao uso do desenho como parte do processo de criação e concretização de projetos o arquiteto Renzo Piano explica da seguinte maneira seu método de trabalho:


"Começamos fazendo esboços, depois traçamos um desenho e em seguida fazemos um modelo, para então chegar à realidade — vamos ao espaço em questão —, voltando mais uma vez ao desenho. Estabelecemos uma espécie de circularidade entre o desenho e a concretização e de volta novamente ao desenho "[2] Sobre a repetição e a prática, observa Piano: "É perfeitamente característico da abordagem do artífice. Ao mesmo tempo pensar e fazer. Desenhamos e fazemos. O ato de desenhar (...) é revisitado. Fazer, refazer e fazer mais uma vez."

Em relação ao superdeterminismo existente em alguns projetos vemos:

[...]Finalmente, a exatidão do CAD traz à baila um problem

a há muito inerente ao desenho de plantas, o do superdeterminismo. Os diferentes projetistas envolvidos na construção do Peachtree Center justificadamente ressaltam com orgulho seus prédios de uso múltiplo, mas essas misturas de funções foram calculadas nos mínimos detalhes; os cálculos levam a uma dedução falsa a respeito do bom funcionamento do objeto concluído. Os projetos superdeterminados deixam de lado aquela irregularidade de texturas que permite, nos prédios, o crescimento e a vibração de pequenos negócios e, portanto, de comunidades. Essa textura resulta de estruturas indeterminadas que permitem que as utilizações sejam abortadas, desviadas ou desdobradas. Fica faltando, assim, a vida informal e tão fácil e sociável

das ruas dos bairros antigos de Atlanta. Uma abrangência positiva do que é Incompleto está necessariamente ausente da planta; as formas são decididas antes do seu uso. Se não chega propriamente a causar o problema, o programa CAD o agrava: os algoritmos fixam quase instantaneamente uma imagem totalizada.

Por isto é que Renzo Piano, projetista de objetos muito complicados, está sempre retornando de forma circular à prática de desenhá-los à mão. As formas abusivas de utilização do CAD bem demonstram que, quando a cabeça e a mão estão separadas, é a cabeça que sofre.

Citamos ainda um trecho sobre padrões conflitantes, pág. 57-65.


“Que queremos dizer quando nos referimos a um trabalho de boa qualidade? Uma resposta diz respeito à maneira como algo deve ser feito, outra, a fazer com que funcione. É a diferença entre correção e funcionalidade. Idealmente, não deveria haver conflito; no mundo real, existe. Muitas vezes adotamos um padrão de correção que raramente é alcançado, se é que chega a sê-lo alguma vez. De forma alternativa, poderíamos trabalhar em função do padrão que é possível, do que é suficientemente bom — mas também aqui podemos acabar na frustração. Dificilmente se pode satisfazer o desejo de realizar um bom trabalho obedecendo à lei do menor esforço. “

Na leitura dessa frase:


“Mais uma vez, a questão é concluir o trabalho para que a peça possa ser usada. Para o absolutista que há em todo artífice, cada imperfeição é um fracasso; para o profissional, a obsessão com a perfeição pode ser a receita do fracasso.”

Deparamos com a diferença de nossas interpretações em relação ao texto, se para mim a obsessão com a perfeição levaria a uma perda material por parte do profissional para a Katia Lopes se tratava de um excesso de detalhes que poderia por a perder o significado da obra. Daí percebemos que mesmo um texto objetivo como o de Richard Sennett pode ser uma rica fonte de discussão e interpretações variadas.

A habilidade é uma prática decorrente de treinamento; a tecnologia moderna está sendo mal empregada quando priva seus usuários precisamente desse treinamento concreto e repetitivo da mão na massa. Quando a cabeça é separada da mão, a consequência é uma deterioração mental — resultado particularmente evidente quando uma tecnologia como o CAD é utilizada para apagar o aprendizado que ocorre no desenho à mão.

[...] temos o problema causado pelas medidas conflitantes de qualidade, uma baseada na correção, a outra, na experiência prática. Elas entram em conflito institucionalmente, como na assistência de saúde, quando o desejo dos reformistas de pôr as coisas para funcionar direito de acordo com um padrão absoluto de qualidade não pode ser conciliado com padrões de qualidade baseados em práticas incorporadas. O filósofo identifica nesse conflito os reclamos divergentes do conhecimento tácito e do explícito; o artífice no trabalho é puxado em direções opostas.

Na realidade o livro é uma motivação para as discussões que ele suscita. É enriquecedor o debate sobre o “fazer” e sobre “como fazer”. O mais importante e estarmos abertos para questionar e perceber outras nuances sobre o processo de criação e da produção artística e isso só poderá nos enriquecer.

Rose Valverde


[1] Sherry Turkle, Life on Screen: Identity in the Age of the Internet (Nova York: Simon and Schuster, 1995), 64, 281n20.

[2] Citado em Edward Robbins, Why Architects Draw (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1994), 126.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Um breve resumo do prólogo (parte) do livro “O Artífice” – Apenas um exercício


Com este comentário quero apenas mostrar o que penso deste texto como um todo apesar de não ter comentado sobre a segunda e terceira parte do prologo.Acho que o Autor comenta sobre Arendt para discordar que existe o Animal laborem e o Homo faber. Para ele os dois podem estar num só e isto é possível se aprendemos fazendo.
Maurílio Souza


Prólogo: O homem, criador de si mesmo

A caixa de Pandora

Hannah Arendt e Robert Oppenheimer

"Logo depois da crise dos mísseis em Cuba, aqueles dias de 1962 em que o mundo chegou à beira da guerra atómica, encontrei na rua com minha professora Hannah Arendt. Ela estava abalada com os acontecimentos, como todo mundo, mas também via confirmadas suas convicções mais profundas. Em A condição humana ela sustentava que qualquer produtor de coisas materiais, não é senhor em sua própria casa; a política é que deve tomar a frente. Chegara a essa conclusão na época (1945) em que as primeiras bombas atômicas foram criadas".


  • Na opinião de Arendt as pessoas que fazem coisas geralmente não sabem o que estão fazendo.



Aqui entra a figura da Caixa de Pandora: A cultura baseada em coisas produzidas pelo homem expõe constantemente ao risco de infligir danos a si mesmo.

No diário de Robert Oppenheimer, Diretor do projeto Los Alamos ele se tranquilizava afirmando: "Quando vemos alguma coisa tecnicamente agradável, vamos em frente e fazemos, e só pensamos no que fazer com ela depois de ter sucesso do ponto de vista técnico. Assim foi com a bomba atômica."

Oppenheimer afirmava que tratar a tecnologia como inimiga servirá apenas para deixar a humanidade ainda mais indefesa. Entretanto, tomado de preocupação com a bomba nuclear e seu filhote termonuclear, ele não podia, nesse foro político, oferecer aos ouvintes sugestões práticas de como enfrentar o problema. Se os especialistas não sabem o que fazer com o que criam, que dizer do público?

No entanto Arendt confiava firmemente que o público seria capaz de entender as condições materiais em que vive e que a ação política fortaleceria a determinação da humanidade de assumir o controle das coisas, ferramentas e máquinas no seu espaço.

"A condição humana, publicado em 1958, afirma a importância de os seres humanos se comunicarem de forma aberta e franca. Escreve Arendt: "A fala e a ação (...) são os modos como os seres humanos se mostram uns aos outros, não, na verdade, como objetos físicos, mas qua homens... Uma vida sem fala e sem ação é literalmente morta para o mundo”.

O fato essencial da vida é que nada perdura — embora na política precisemos que algo nos oriente, elevando-nos acima das confusões do momento.

  • Observação: Buscando o significado de “qua” Encontrei um texto sobre Arendt da Profa Mariângela Nascimento que, se não me engano, é professora da UFJF.

Aluno de Arendt há quase meio século, eu achava sua filosofia essencialmente estimulante, mas já então ela não me parecia exatamente adequada no trato das coisas materiais e das práticas concretas contidas na caixa de Pandora. A dificuldade de Arendt de lidar com Pandora repousa na distinção por ela estabelecida entre Animal laborem e Homo faber.

Para Arendt O Homo faber é o juiz do labor e da prática materiais, não um colega do Animal laborens, mas seu superior. Desse modo, na visão dela, nós, seres humanos, vivemos em duas dimensões. Numa delas, fazemos coisas; nesta condição, somos amorais, entregues a uma tarefa.

Também somos habitados por uma outra forma de vida, mais elevada, na qual deixamos de produzir e começamos a discutir e julgar juntos. Enquanto o Animal laborens está fixado na pergunta "Como?", o Homo faber pergunta "Por quê?". Esta divisão parece-me falsa porque menospreza o homem prático que trabalha. Para Arendt, a mente se ativa uma vez realizado o trabalho. Uma outra visão, mais equilibrada, é a de que o pensamento e o sentimento estão contidos no processo do fazer.

Deixar que o público "resolva o problema" depois de realizado o trabalho equivale a defrontar as pessoas com fatos em geral irreversíveis no campo concreto. O envolvimento deve ter início antes, requerendo uma compreensão melhor e mais plena do processo através do qual as pessoas produzem coisas, um envolvimento mais materialista que o encontrado em pensadores como Arendt. Para enfrentar Pandora, é necessário um materialismo cultural mais vigoroso.

A palavra materialismo deve aqui suscitar cautela; ela foi desvirtuada, conotada na história política recente pelo marxismo e na vida cotidiana pela fantasia e a ganância consumistas.

Quanto ao termo "cultura", apesar de centenas de significados modernos precisamos virar a página. E podemos fazê-lo simplesmente perguntando — embora as respostas nada tenham de simples — o que o processo de feitura de coisas concretas revela a nosso respeito ?

  • Uma observação: Aqui me parece ser um ponto importante do prólogo. Responder esta pergunta não é fácil! A resposta é parte do livro... acho. Pode ser interessante ler o que o tradutor do “O Artífice” escreveu.

"Para aprender com as coisas, precisamos saber apreciar as qualidades de uma vestimenta ou a maneira certa de escaldar um peixe; uma boa roupa e um alimento bem preparado nos permitem imaginar categorias mais amplas de "bom". Amigo dos sentidos, o materialista cultural quer saber onde o prazer pode ser encontrado e como se organiza. Curioso das coisas em si mesmas, ele ou ela quer entender como são capazes de gerar valores religiosos, sociais ou políticos. O Animal laborem pode afinal servir de guia para o Homo faber.

Chegando por minha vez à velhice, voltei mentalmente àquela rua do Upper West Side. Quero sustentar perante Arendt a argumentação de que não fui capaz na juventude: as pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, a cultura material é importante. Envelhecendo, minha mestra tornou-se mais esperançosa de que o tirocínio do Homo faber pudesse salvar a humanidade de si mesma. No meu outono, tornei-me mais esperançoso quanto ao animal humano no trabalho. O conteúdo da caixa de Pandora pode efetivamente tornar-se muito menos assustador; podemos alcançar uma vida material mais humana, se pelo menos entendermos como são feitas as coisas".

***********

O romance da flauta

Em busca de um mundo perdido: Métodos de flauta do Barroco ao século XX (Laura Rónai,Topbooks, 2008, 314 pp.) pode parecer algo distante, pelo título e pelo tema. Mas sua leitura, além de propiciar o encontro com uma erudição substantiva, nos conduz pelas inevitáveis tecnicalidades com saborosa leveza e um senso fascinante da contextualização histórica.

Por feliz coincidência, mergulhei no livro num momento em que trabalhava na tradução de outro — O artesão, do sociólogo americano Richard Sennett — sobre o papel da cultura material e dos vínculos entre a mão e a cabeça no conhecimento que temos do mundo e em nossa relação com ele.

Se tivesse de resumir a investigação de Sennett, eu diria que ele tende a mostrar o que a cultura ocidental pode perder com a separação entre abstração e materialidade, teoria e prática, expressão e técnica, arte e artesanato. O entendimento de que não existe uma superioridade da cabeça sobre a mão, mas uma relação de recíproca nutrição, é uma pista a ser retomada — sustenta — pela sociedade moderna: “Precisamos (…) virar a página. E podemos fazê-lo simplesmente perguntando (…) o que o processo de feitura de coisas concretas revela a nosso respeito.”

Professora da UNIRIO, conhecida Brasil afora por seus concertos e discos, Laura se especializou na flauta barroca e é um expoente internacional do movimento de revivescência dos estilos de épocas anteriores.

Entre os instrumentos de sopro da tradição ocidental, a flauta é o que mais depende de elementos imponderáveis no processo de produção da sonoridade: não conta com uma embocadura já preparada, ao contrário do oboé, da clarineta e do fagote, com suas palhetas, nem estabelece contato direto da boca com os orifícios por onde a coluna de ar adquire forma e direção, como no caso da trompa ou do trompete.

Essa dificuldade física é o ponto de partida de um complexo emaranhado de fatores em que o controle do ar soprado — e, portanto, o resultado musical — depende do tamanho e da forma dos lábios e da cavidade bucal; do estado de relaxamento ou tensão da garganta e das bochechas; dos golpes de língua e do ângulo de incidência da coluna de ar sobre o bisel (a “chanfradura feita na espessura do orifício do bocal”, pela qual o ar, resvalando, produz o som do instrumento); e até da postura do corpo e da cabeça ou da direção do olhar!

Como parece mais complicado (superficialmente, claro) que o ato de um pianista que simplesmente ataca as teclas com seus dez dedos e o peso dos braços, dos ombros e do tronco!

A dificuldade é ainda maior no caso da flauta barroca, que não dispõe de certos recursos facilitadores da moderna, como o sistema de chaves introduzido no fim do século XVIII para maior agilidade digital e produção de semitons cromáticos.

Se antes o instrumento se adaptava ao intérprete, é agora o contrário que deve acontecer. Explica Laura: “Se nos métodos antigos o ouvido é a medida de todas as coisas — caso o som obtido seja bom, todas as regras podem ser esquecidas –, nos métodos mais modernos prevalece a mecânica dos gestos — ou seja, se todas as regras forem seguidas, não há como não se chegar a um bom resultado.”

Toda essa grande (e gradual) virada é um dos pontos nevrálgicos do romance da flauta relatado por Laura Rónai. A paixão com que os teóricos desse período de transição desciam a detalhes e terçavam armas em torno de questões infinitesimais da técnica, da fatura do instrumento e da arte da interpretação dá conta do fim de uma era e da abertura de novos mundos. As mudanças na vida das sociedades, na cabeça das pessoas e na cultura musical se entrelaçam com harmônica artesania nas páginas de Em busca de um mundo perdido.

O que ficava para trás era um mundo de maior delicadeza e finura da prática e da escuta.


Richard Sennett

Uma Breve Biografia

Richard Sennett nasceu em Chicago em 1943. Ele cresceu no Projeto de Habitação Cabrini Green, um dos primeiros racialmente misto projetos públicos de habitação nos Estados Unidos. Aos seis anos de idade começou a estudar piano e violoncelo, eventualmente,trabalhar com Frank Miller, da Sinfônica de Chicago e Adão Noel do Quarteto Julliard. Sr. Sennett foi um dos alunos do último do maestro Pierre Monteux. Em 1963, uma lesão na mão colocar um fim repentino de sua carreira musical, para melhor ou pior que ele, em seguida,embarcou em estudo acadêmico.

Sr. Sennett formado na Universidade de Chicago e da Universidade de Harvard, tendo recebido seu Ph.D. em 1969. Ele então se mudou para New York, onde, na década de 1970 fundou, com Susan Sontag e Brodsky, Joseph, The New York Instituto de Ciências Humanas naUniversidade de Nova York. Na década de 1980 atuou como consultor da Unesco e presidente do Conselho Americano sobre Trabalho, ele também ensinou, ocasionalmente, em Harvard. Em meados de 1990 o Sr. Sennett começou a dividir seu tempo entre New York University e da London School of Economics. Além dessas casas acadêmica, ele mantém ligações informais ao MIT e do Trinity College, CambridgeUniversity. Mr.Sennett é casado com a socióloga Saskia Sassen. Ele continua a tocar música de câmara para o prazer, e é um cozinheiro apaixonado.